exposição individual | Luísa Martins
curadoria Galeria 18
Partouze
O termo francês partouze é comumente associado à ideia de orgia ou suruba, reduzido em seu uso corrente à esfera da sexualidade explícita. No entanto, sua acepção mais ampla remete a encontros e afetos compartilhados entre múltiplos sujeitos — relações simultâneas, fluidas e interdependentes. Assim como muitos conceitos ligados ao feminino, a palavra carrega em si uma ambiguidade que serve de ponto de partida para a presente exposição.
Na mostra ‘Partouze’, a artista Luísa Martins propõe um questionamento crítico a respeito da representação da mulher na história da arte: qual é seu lugar? Quem a representa? E sob qual perspectiva é observada? Esses questionamentos orientam a produção da artista em sua segunda fase, marcada por uma virada simbólica e estética.
Em sua primeira fase, desenvolvida no Rio de Janeiro, Luísa Martins dedicou-se a cenas introspectivas de seu cotidiano, expressas por meio de cores vibrantes e composições de caráter fantástico. Tal abordagem se transforma radicalmente em sua experiência em Paris, onde, ao se perceber isolada e fora de sua rede de pertencimento, a artista confronta de maneira direta as formas como é vista — e, sobretudo, as formas como não é vista, não apenas como mulher cis e lésbica, mas como sujeito na história da arte.
A partir dessa vivência, emerge uma pesquisa dedicada à representação, atravessada pela constatação de que falar sobre lesbianidade é, necessariamente, falar sobre ser mulher, sobre seus cotidianos e sobre as relações entre mulheres.
Nesse percurso, referências como o Teste de Bechdel — popularizado por Alison Bechdel em sua tira Dykes to Watch Out For — oferecem uma chave conceitual para pensar a ausência histórica de personagens femininas que existam para além do olhar masculino. Quando transposto às artes visuais, esse critério revela que a tradição ocidental frequentemente destina à mulher o papel de musa: as Vênus renascentistas, as Ofélias românticas, sempre figuras idealizadas, cujas narrativas orbitam em torno do masculino, seja no criador, no observador ou na própria construção imagética.
Consciente dessa lacuna, Luísa Martins adota uma linguagem visual que rompe com os signos convencionais da feminilidade idealizada. Abandona as cores ingênuas e os cenários introspectivos para composições mais sóbrias, de traços menos figurativos, nos quais as personagens femininas se entrelaçam em gestos fluidos e contínuos.
Em suas obras, os corpos fundem-se e diluem-se em manchas de pele e formas abstratizadas, revelando, mesmo na ausência de contornos nítidos, relações íntimas e afetivas entre mulheres. Trata-se de um movimento oposto à hipersexualização: uma tentativa consciente de construir um imaginário em que o feminino possa existir em sua plenitude subjetiva, sem estar a serviço de um olhar externo.
‘Partouze’ não é, portanto, uma apologia à devassidão. É uma reflexão sobre o romance, sobre o afeto e, sobretudo, sobre o lugar da mulher na arte — em sua forma mais natural, sem disfarces ou maquiagem. As obras apresentadas nesta mostra convidam o público a reconhecer nas mulheres retratadas, não as musas ou os arquétipos, mas sujeitos complexos e autônomos, cujas narrativas ultrapassam as expectativas impostas por uma tradição predominantemente masculina.
Galeria 18
abertura
16 de agosto das 11h às 15h
visitação
16 de agosto a 20 de setembro de 2025
local
Galeria 18
Rua Simpatia, 23
Vila Madalena – SP
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