exposição individual | James Rowland
curadoria Valquíria Prates
Ossos da terra
O que acontece quando uma estrutura não consegue mais conter aquilo que existe dentro dela?
Em “Ossos da terra”, James Rowland parte da observação de uma relação sistêmica entre vida, corpos e matéria mineral. Grande parte dos elementos que compõem as estruturas ósseas, como cálcio, fósforo, ferro e magnésio, também estão presentes nas rochas, nos sedimentos e nas camadas subterrâneas do nosso planeta de modo que, entre terra e corpo, há uma continuidade material silenciosa.
O título da exposição aproxima essas dimensões ao sugerir uma terra que também é corpo vivo, com ossatura, memória física e tensões internas. Nos trabalhos presentes na mostra, madeira, couro, látex, argila, lama, pigmentos e chifres parecem emergir como fragmentos de um corpo mineral vivo, onde forças de sustentação, compressão e ruptura, tornam visíveis aquilo que costuma permanecer sob a superfície.
São obras que investigam justamente este momento em que uma estrutura já não consegue conter aquilo que existe dentro dela. Entre o equilíbrio e o colapso, as esculturas parecem erguer corpos, superfícies e armaduras, apenas para levá-los até um limiar de instabilidade. Rasgos, perfurações, saliências e deformações aparecem como sinais de forças que pressionam a matéria de dentro para fora com uma violência que se mostra em gestos lentos. Em vez de representar corpos reconhecíveis, os trabalhos fazem a própria matéria comportar-se como organismo: superfícies assumem o aspecto de pele, membrana ou córtex; hastes alongadas lembram espinhos, raízes ou estruturas de defesa; os volumes arqueiam, cedem ou sustentam-se precariamente no espaço. Telas se mostram como criaturas vivas, com superfícies que causam uma atração inquieta entre o desejo e a repulsa, podendo levar a uma tensão quase irresistível entre o erotismo e a aversão.
James Rowland desenvolve, há mais de uma década, uma pesquisa escultórica com origem na marcenaria e no design. Sua pesquisa artística recente incorpora à madeira outros materiais como couro, látex, argila, terra, lama de mangue, tecido, pigmentos, gesso e chifres, aproximando elementos minerais, vegetais e animais em uma mesma construção formal ligada à relação entre corpo, matéria e tensão estrutural. Nessas obras, os suportes reagem, resistem, cedem, comprimem e se transformam sob ação da gravidade, do gesto e de uma ilusão de tensão física. Cada trabalho parece registrar um estado de passagem, como se permanentemente sendo atravessado por suas próprias forças, tentando emergir para além da superfície.
Logo na entrada da mostra, “Murmúrio” apresenta uma estrutura arqueada sustentada por hastes extremamente finas, produzindo a sensação de algo que tenta permanecer de pé enquanto cede ao próprio peso. O tecido tingido com argila aproxima a superfície de uma pele tensionada sobre uma espécie de ossatura. Nas paredes ao redor, as placas perfuradas, rasgadas ou pressionadas por dentro, transformam a superfície em campo de emergência. Pequenas frestas, espinhos e protuberâncias indicam que o conteúdo do interior nunca permanece completamente oculto.
No primeiro andar, a escala dos trabalhos se amplia e as esculturas passam a ocupar o espaço como corpos em transformação contínua. Próxima à janela, Leviatã se mostra como uma grande estrutura suspensa que poderia ser um casulo, uma embarcação funerária ou um organismo vivo em mutação, feita de vida que se nutre simultânea e reciprocamente. As madeiras alongadas, que atravessam sua base, fazem o corpo parecer apoiado e atravessado pela gravidade ao mesmo tempo. Tingido com lama de mangue, o tecido aproxima a obra de uma matéria retirada diretamente do solo, como se a escultura emergisse de um território úmido e sedimentar. Ao redor dela, obras verticais e suspensas sugerem ferrões, raízes aéreas ou organismos em expansão, produzindo a sensação de crescimento e deslocamento pelo espaço. Na outra sala está “Buphónia”, uma peça que evoca a forma de um boi que povoa o imaginário ancestral cerimonial de sacrifícios cíclicos pela fertilidade das colheitas.
No segundo andar, “Alma de boi #2” concentra de maneira radical as tensões presentes em toda a exposição. Revestida em couro e atravessada por longas hastes de madeira, a estrutura parece articular proteção e ameaça ao mesmo tempo. O interior comprimido projeta-se violentamente para fora da superfície, como se já não pudesse permanecer contido. Ao redor dela, as obras da série “Córtex” deslocam essa investigação para a pele e para a dimensão tátil: protuberâncias empurram o látex por dentro, chifres atravessam explicitamente a superfície ou permanecem apenas insinuados sob ela. Em outro núcleo de trabalhos, “Sentinela” assume uma presença quase totêmica, com sua verticalidade extrema que faz a obra oscilar entre criatura, arma e mecanismo de vigilância. Próximas dela, as esculturas da série “Feelers” amplificam a dimensão sensorial de suas formas, como se antenas, patas ou órgãos táteis sondassem o ambiente antes de atravessá-lo.
Neste conjunto, ossos, espinhos e chifres funcionam como acontecimentos materiais, pontos em que aquilo que estava oculto atravessa a superfície e se torna visível. A violência presente nas obras, para além de narrativa, passa a ser operação física, envolvendo compressão, peso, velocidade e força que incidem diretamente sobre a matéria, fazendo-a ceder, rasgar-se ou expandir-se. Muitas dessas estruturas parecem mover-se, perfurando o espaço como raízes que atravessam o solo para abrir passagem. Entre proteção e ataque, sustentação e ruptura, as esculturas constroem um território onde a matéria parece estar em transformação permanente.
Na mostra de James Rowland, a vida é atravessada por pressões internas, instinto, desejo, intenção, camadas de memória, tudo é força em movimento. As obras são como rastros vivos desses devires e revelam a estrutura instável que sustenta os corpos e o próprio mundo.
Valquíria Prates
abertura
2 de junho das 19h às 22h
visitação
2 de junho a 27 de junho de 2026
local
Galeria 18
Rua Simpatia, 23
Vila Madalena – SP
o que saiu na imprensa
texto curatorial
catálogo
fotos vernissage
obras























