exposição individual | Michael Naify
curadoria Luiz Armando Bagolin
Origens
Um cianótipo se faz devagar, com sais de ferro espalhados à mão sobre o papel, luz, água e espera. Michael Naify acrescenta a esse processo uma viragem em café, na qual cada cópia fica mergulhada por algumas horas, e é nessa etapa que a imagem paga um preço: o azul da Prússia recua para tons de terra, o café tinge o papel e vela as altas luzes, o contraste cai, e uma parte do que o negativo distinguia se extravia sem volta. Foi com essa técnica, que entrega menos do que a película registrou, que o artista fotografou, entre 2018 e 2024, o Quadrilátero Ferrífero e os caminhos da antiga Estrada Real, em Minas Gerais.
Ferro e café não estão ali por acaso. Depois do ouro, foram as mercadorias sobre as quais a economia mineira se assentou, e o percurso começa justamente onde essa economia fez fortuna, na casa do Barão de Paraopeba, em Belo Vale. Naify fotografou os retratos de Romualdo José Monteiro de Barros e da baronesa Margarida Eufrásia, a mesa posta com porcelana de Limoges e, guardados na mesma propriedade, a máscara de flandres que impedia os escravizados da cozinha de comer, a tranca do tronco, uma gargalheira de ferro. O prato de rosas e a máscara perfurada pertencem ao mesmo inventário e, vistos lado a lado, dispensam comentário sobre a origem do que se servia àquela mesa.
Da fazenda o artista segue o ferro até um pátio de sucata em Contagem, onde o metal termina o seu ciclo e onde trabalha Milton, fotografado de frente, com a camisa impregnada de graxa. Há, nas portas dos armários de aço, recortes de mulheres nuas colados sobre a ferrugem, e há um urso de pelúcia preso a uma grade, sem que se saiba por quem nem há quanto tempo. Mais de um século e meio separa o retrato do barão do retrato do operário e, no entanto, o café os recobre com as mesmas manchas e os faz parecer contemporâneos, o que eles de certo modo são, porque a casa conserva a mesa posta e os ferros de castigo, o vestiário tem a idade dos seus armários, e a estação de minério de Brumadinho, com os trilhos vazios, está desativada.
Seria fácil chamar isso de pitoresco. O pitoresco, porém, precisa de um passado concluído para tornar amável a ruína, e aqui nada se concluiu, já que a mineração nunca parou, opera hoje em escala industrial e mantém parado tudo o que a cerca. O próprio fotógrafo se inclui nesse tempo sem saída quando abre a exposição com um autorretrato em que aparece, de máscara de porco e com um copo-de-leite na mão, diante da parede de uma mina.
A paisagem dá as datas. Em 1844, em Itabirito, a galeria da mina de Cata Branca desabou sobre dezenas de trabalhadores escravizados por uma companhia inglesa, cujos administradores dispunham ali perto de um cemitério próprio, vedado aos cativos, e Naify fotografou a boca dessa mina, hoje quase fechada pela vegetação. Em janeiro de 2019, em Brumadinho, o rompimento de uma barragem de rejeitos matou 272 pessoas, na maioria empregados e terceirizados da mineradora, e o que o artista trouxe de lá é a imagem de um resto retorcido no campo de rejeitos, do qual já não se consegue dizer o que foi.
É nesse resto indistinto que o processo e o lugar se encontram. Assim como a viragem retira à fotografia uma parte do que ela distinguia, a extração vem retirando ao território, morro a morro, as feições pelas quais ele se reconhecia, de modo que a paisagem de Minas chega a estas folhas duas vezes erodida, primeiro pela lavra e depois pelo café. O título, no plural, fala de procedências, a fazenda, a mina, o pátio de sucata, o campo de rejeitos, lugares de onde a riqueza foi e continua a ser retirada. Fala também de uma perda, porque um lugar que se desfaz deixa de responder por aqueles que nasceram nele, e a pergunta que as imagens acabam por devolver a quem as vê é a mais simples que a palavra origem contém. De onde somos?
Luiz Armando Bagolin
abertura
7 de novembro de 2026
de 15h às 19h
visitação

7 de novembro de 2026 a 22 de março de 2027
de quarta a segunda das 11h às 19h
local
Museu Lasar Segall – Sala Oscar Klabin Segall
Rua Berta, 111
Vila Mariana – SP
o que saiu na imprensa
Mapa das artes
DasArtes
Samba Magazine
texto curatorial
catálogo
fotos do vernissage
obras




















MUSEU LASAR SEGALL
DIRETORIA
Mauricio Sagall
DIRETOR EMÉRITO
Paulo José Nascimento Lima
DIRETOR
Paulo Simões de Almeida Pina
CHEFE DA DIVISÃO TÉCNICA
Valquíria Carmo Cestrem
CHEFE DA DIVISÃO ADMINISTRATIVA
ADMINISTRAÇÃO
Fabíola Teixeira do Nascimento
Gabriela Lima Nascimento
Larissa Domingos de Sá
Vanessa da Silva Bonifácio
Walter Costa
EQUIPE
ATELIER DE GRAVURA
Paulo Camillo Penna
Tauany de Freitas
Ana Luiza Perrela
VOLUNTÁRIAS
BIBLIOTECA JENNY KLABIN SEGALL
Paulo Simões de Almeida Pina
COORDENADOR
Cibele Velloso
Elisabete da Silva
Luciana Gonçalves de Azevedo
Rodrigo Soares de Oliveira
EQUIPE
Hilda B. Galvão Cesar Ferraz
Vaner Maria Birolli Ratto
VOLUNTÁRIAS
CINE SEGALL
Célio Franceschet
CURADOR
Rodrigo Augusto Braga
PROJECIONISTA
Rodrigo Augusto Braga
PROJECIONISTA
EDUCATIVO
Rodrigo Augusto Braga
COORDENADOR
Paula Hilst Selli
Stela Maris Sanmartin
EQUIPE
INFORMÁTICA
Ademir Maschio
COORDENADOR
Matheus Santos de Andrade
ESTAGIÁRIO
MUSEOLOGIA
Ricardo Fernandes
COORDENADOR
Suzete Bomfim Feitosa
EQUIPE
PESQUISA
Daniel Rincon Caires
Pierina Camargo
Tobias Vilhena de Moraes
LIMPEZA
Alexsandro Nolasco Silva
Cícero Silva Figueira
Gilmar Batista da Silva
MANUTENÇÃO PREDIAL
Edson de Souza Pereira
João Santos de Oliveira
RECEPÇÃO
Ana Maria Brandão
Sandra de Vasconcellos Pereira
SEGURANÇA E VIGILÂNCIA
Alessandra Oliveira dos Santos
Alisson da Silva Santos
Danilo Ribeiro de Souza
Espedito Roque Moreira
Gilberto Lacerda dos Santos
Jairo Barbosa de Souza
Luciano De Souza Pinheiro
Márcio dos Santos Marcondes
Maria Selam Barros Cordeiro
Samile Silva Veloso
Silvia Helena de Oliveira Pereira da Silva
Silveria Freitas Coelho
Yara de Jesus Loiola
Associação Cultural de Amigos do Museu Lasar Segall (ACAMLS)
Angel Bojadsen Neto
PRESIDENTE
Ayao Okamoto
Ricardo Zagallo Camargo
VICE-PRESIDENTE
Celso Lafer
Marcelo Baptista Conti
CONSELHO FISCAL
Sandra Britto
ADMINISTRAÇÃO
Marlene Thomann
EQUIPE
EXPOSIÇÃO ORIGENS
Luiz Armando Bagolin
CURADORIA E TEXTO CRITICO





