Nunca é para sempre


exposição individual | Flavia Fabbriziani

curadoria Shannon Botelho

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Nunca é para sempre

Costumamos contar o tempo como quem percorre uma estrada, admirando a paisagem pela janela — uma narrativa com início, meio e fim. Mas talvez o tempo não seja uma linha reta, e sim um gesto: o deslocar silencioso dos acontecimentos, a demora com que nos atravessam, as marcas que deixam. É na percepção da vida cotidiana que o tempo, de fato, se revela. Nesta exposição, Flavia Fabbriziani propõe uma reflexão sobre o tempo e sua relação com a natureza — esse elemento ambivalente que ora define nossa humanidade, ora aponta para o infinito – e o finito – da existência fora de nós.

Inspirada no pensamento estoico, onde tempo e vida se entrelaçam, Flavia convida o visitante a pensar seus próprios percursos, limites e desejos de permanência. As obras mimetizam a fugacidade da existência, oferecendo experiências poéticas em que o gesto pictórico não se encerra nele mesmo: funciona como via de mão dupla, em que cores, formas e ritmos acolhem o olhar do observador. Se a pintura sempre foi seu território de expressão, aqui Flavia Fabbriziani se reinventa: o que antes era puro ritmo gestual dá lugar a “quase miragens” — imagens que flutuam entre abstração e memória, lampejos que dançam na superfície da tela.

A observação da paisagem — especialmente a vista da janela do ateliê — é transposta para a tela como metáfora da própria vida. A abstração, espaço de elaboração do sensível, incorpora elementos naturais e desorganiza qualquer narrativa figurativa em pulsões de cor e gesto. Os ventos quentes, as folhas em mil verdes, os cachos dourados das flores — tudo é abstraído do real para, ao fim, ser reelaborado pelo gesto criador da artista. 

A expografia é composta por quatro núcleos que modulam a experiência do tempo: dos verdes iniciais às vibrações florais da sala central, passando pelo calor tátil dos “ventos quentes” até o recolhimento meditativo da série Ânima. Ao longo do percurso, Flavia Fabbriziani oferece uma afirmação delicada: o tempo é duração que abriga a vida com suas marcas, limites e reconstruções. Porque, se há em nós um desejo de eternidade, sabemos também que tudo aquilo que criamos, cultivamos e sonhamos — nunca é para sempre.

Shannon Botelho

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