exposição individual | Flavia Fabbriziani
curadoria Jurandy Valença
Habitar a paisagem
“Imóvel, a pintura precisa, por assim dizer, criar seu próprio movimento”.
Friedrich Wilhelm Joseph Schelling
No livro “Sobrevivência dos vagalumes”, Georges Didi-Huberman (1953) apresenta uma defesa e uma reflexão sobre a persistência e a resistência da criação em tempos de escuridão. Tendo como inspiração os pensamentos de Pier Paolo Pasolini (1922-1975) acerca da imagem dos vagalumes, o filósofo francês contrapõe a luminosidade descontínua, errante e frágil, desses pequenos insetos ao brilho dominador dos dispositivos de poder, do espetáculo e da homogeneização cultural. Se para Pasolini os vagalumes haviam desaparecido diante da violência do mundo contemporâneo, Didi-Huberman propõe outra leitura: eles continuam existindo, ainda que sua luz seja tênue, intermitente e exija um olhar atento para ser percebida.
Essa “sobrevivência dos vagalumes” propõe, portanto, uma dimensão ética do olhar. Ver é aprender a reconhecer os pequenos lampejos que persistem na arte, na história e na natureza. Um acontecimento visual que resiste ao excesso de imagens e devolve ao olhar a possibilidade da contemplação. No livro, somos ofertados com novas maneiras de compreender a experiência da imagem, e de que, também, possamos voltar o nosso olhar para aquilo que é aparentemente descontínuo, insignificante. A metáfora não deixa de encontrar ressonâncias no aqui e agora, em um mundo saturado pelas velocidades dos acontecimentos, inundado por um tsunami de dados, pelo excesso de imagens e informações que, ao invés de clarear, ofuscam. Os artistas, quiçá tanto quanto os vagalumes, preservam a potência de anunciar outros modos de habitar o mundo.
Memórias sedimentadas
Esse pensamento me permite aproximar e refletir sobre a pintura de Flavia Fabbriziani, cuja produção pictórica parece situar-se precisamente nesse território onde a imagem não busca inicialmente impor uma presença absoluta, mas criar por intermédio de acúmulos de matéria, apagamentos, camadas espessas de tinta, espaço, luz, transparências e matizes com diversas nuances de cores, um campo de atenção para aquilo que parece permanecer em permanente estado de negociação. A natureza, as paisagens presentes em sua obra não correspondem necessariamente à tradição da paisagem como descrição do visível ou do registro topográfico, mas operam por outros modos de pensar e pintar, como se acessassem memórias sedimentadas.
Suas pinturas sugerem estados de transformação contínua, mas sem romper completamente com aquilo que foram ou o que são. A paisagem, então, deixa de ser apenas um lugar geográfico e transforma-se numa condição da percepção. Deixa de ser cena para tornar-se acontecimento. Ela reivindica – ao meu ver – uma “ecologia da percepção”, lembrando aqui do estadunidense James Jerome Gibson (1904-1979), eminente psicólogo e um dos maiores teóricos sobre a percepção visual. Assim como os vaga-lumes emitem lampejos que escapam à lógica das iluminações totalizantes, a pintura de Flavia Fabbriziani constrói pequenas zonas de luminosidade que exigem um olhar demorado, desacelerado e onde nada nela se entrega de imediato. Parece que ela nos convoca a estabelecer um outro regime de atenção. A natureza e a paisagem para a artista não são apenas um cenário, mas também uma arqueologia subjetiva, uma geografia da memória que abriga camadas, vestígios do tempo.
A tinta como a carne do mundo
A pesquisa e a produção artística de Flavia se aproxima conceitualmente e esteticamente da fenomenologia do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Para ele, a pintura não copia o mundo, mas participa de sua própria formação. O pintor (o artista) revela aquilo que o filósofo chamou de “a carne do mundo”: uma densidade, uma espessura comum entre o sujeito (que pensa) e o objeto (a natureza); entre o olhar e a matéria, entre o corpo e a paisagem. Na pintura de Flavia Fabbriziani, a natureza e a paisagem assumem o papel de ser um espaço de pensamento; e nela percebe-se uma amálgama e, ao mesmo tempo, uma dissolução das fronteiras do que é representado.
As formas vegetais, minerais e atmosféricas nunca aparecem completamente estabilizadas. Entre espaços naturais e aqueles que simulam a natureza, que criam simulacros, a artista [re]cria uma imaginação materializada em uma vegetação tropical, árvores, uma corrente ou um espelho d’água, crescimento, decomposição, erosão, flores, fogo, folhas, galhos, luz, pedras, regeneração, terra e vento. De certa forma, ela aborda uma dimensão mais íntima dessa experiência, aquela que Gaston Bachelard (1884-1962) chamou de imaginação material. Para ele, a imaginação não nasce da abstração, mas da conexão profunda com os elementos fundamentais da matéria: a água, o ar, o fogo e a terra. Cada um deles desperta uma memória ancestral do corpo, uma poética que antecede qualquer elaboração racional.
O fluxo polimorfo
O problema da relação entre o artista e a natureza sempre foi atravessado por sua dimensão empírica. Afinal, é a partir da experiência prática, da observação direta ou na coleta de dados no mundo real (ou não, visto as ferramentas de Inteligência Artificial) que ele cria. E a pintura é um dispositivo canônico em uma hierarquia de meios artísticos que teve, durante séculos, a paisagem como um gênero muito apreciado e difundido. Nesse sentido, a obra de Flavia Fabbriziani toca uma questão central das artes visuais contemporâneas: como representar a natureza depois da exaustão da ideia clássica de paisagem?
Cabe, destarte, ao artista adotar um novo, um outro repertório visual para descrever, a um só tempo, o que ocorre na arte, na natureza, na paisagem e na passagem (aqui me refiro ao tempo) que abrigam, em si, seu próprio “fluxo polimorfo”. Termo que surge na filosofia estética, com base nas ideias de Friedrich Schelling (1775-1854) para descrever a natureza como algo vivo e em constante mutação do mundo, lembrando o seu famoso discurso “Sobre a relação das artes plásticas com a natureza”, de 1807.
Flavia, em sua investigação da natureza e da paisagem na pintura, procura em suas obras não apenas representar paisagens identificáveis, nem traduzir a natureza em imagens ilustrativas. Se equilibrando entre a abstração e a figuração, ela instaura – também – a possibilidade de nos apresentar a natureza demiúrgica do ser humano. Tentar romper com a verossimilhança ou assimilá-la? Rasgar a representação? Vislumbrar um “horizonte hermenêutico” ? Expressão cunhada pelo filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002), que se refere ao conjunto de crenças, culturas, experiências e linguagens que formam o contexto no qual interpretamos o mundo.
Talvez a função do artista seja sempre se interrogar sobre suas próprias questões, suas certezas e dúvidas. E talvez a maior contribuição de Didi-Huberman, retomando o começo desse texto, seja deslocar a questão da imagem para a questão do olhar. O problema não é saber se ainda existem vagalumes; o problema consiste em perguntar se ainda somos capazes de percebê-los, de ver a luz que emitem mesmo na noite mais escura. Afinal, nunca devemos esquecer que a paisagem não está só diante de nós. Estamos dentro dela.
Jurandy Valença
abertura
5 de agosto das 19h às 22h
visitação
5 de agosto a 5 de setembro de 2026
local
Galeria 18
Rua Simpatia, 23
Vila Madalena – SP
o que saiu na imprensa
texto curatorial
catálogo
fotos vernissage
obras

































