exposição individual | Flavia Fabbriziani
curadoria Christiane Laclau
Geografia das memórias
“Sou da família dos batráquios: através da barriga, vísceras e mãos, me veio toda a percepção sobre o mundo. Não tenho memória, minhas lembranças são sempre relacionadas com percepções passadas apreendidas pelo sensorial.”
Lygia Clark, “Breviário sobre o corpo”, 1998
Na poética de Flavia Fabbriziani, encontramos o corpo como lugar da experiência. Sua pintura é desenvolvida nos espaços que há entre a sensação e a memória, entre o visível, a rica percepção pelos sentidos e tudo mais que se manifesta como presença e que fica antes das tentativas de decodificação do mundo por meio das linguagens escritas, faladas e visuais.
É importante dizer que esse caráter da experiência não é privilégio da percepção. Em outra via, é justamente a tensão de sua relação com a memória, tornando-a viva, como tarefa e compromisso, trazida de sua educação familiar, que a artista passou a observar com atenção até que viesse a pesquisá-la efetivamente, do ponto de vista artístico.
Flavia cresceu em uma família italiana imigrante clássica, para quem viver é sempre um ato coletivo, e cuja memória é um dever executado em trânsitos e movimentos. Feita da fragilidade dos livros e objetos preservados por pais e avós, essa memória livre e experimental constitui parte significativa da essência de sua subjetividade e de sua identidade.
Esse interesse pelo passado, aberto e sem pretensão de conclusão, mais tarde a levou à gestão de museus, especialização que se conecta diretamente ao restante de sua pesquisa. Foi entre essas duas dimensões, a afetiva e fluida, e a institucional e mais rígida, que os contornos de sua poética foram construídos. Na tela, a consciência sobre a distante e impossível “lembrança exata” se torna uma forma nova, estruturada pelo tempo vivido no corpo, experiência que oscila entre o que deve ser esquecido ou ressurgir, sem previsibilidade ou razão.
Central nesse processo, o corpo rege a escala de cada obra, bem como determina a intensidade da descoberta da superfície bidimensional da pintura, ora com gestos largos, de maior amplitude, ora com passagens menores e contidas, até que esse recolhimento se torne plenamente uma interrupção. Nesse processo, a luz, a matéria e a fatura são ferramentas fundamentais, sobre as quais Flavia demonstra destreza e fluência, tornando e revelando a pintura menos uma representação do mundo e mais uma presença dele.
Assim, a entrada da matéria vegetal na pesquisa da artista elevou o corpo a expandir sua força – um outro modo de observar como o tempo se deposita sobre a matéria. Nessa interseção, a obra de Flavia Fabbriziani se aproxima tanto do pensamento de Lygia Clark, na compreensão do corpo e da sensação que são, por inteiro, a própria memória, a ponto de renegar sua existência; quanto da paisagem de Anselm Kiefer que tem a abstração como recurso para, tantas vezes, transitar entre as tantas camadas que interligam o lembrar e o esquecer.
Preservando o ponto de partida concreto em seu fazer artístico, a artista escolheu um livro antigo da biblioteca de seu pai que tinha flores secas entre suas páginas, esquecidas ao longo de décadas. Outro exemplo é a paisagem do sítio da sua infância, em Cabreúva, SP, revisitada já na vida adulta, onde a vegetação crescia solta e os pastos pareciam maiores do que qualquer coisa. Há ainda outras geografias, como os diferentes pátios e jardins internos da Itália e que chegam à tela misturados à vegetação tropical do Rio de Janeiro, onde Flavia vive hoje. Há também as que existem apenas como desejo, como uma canção antiga, conhecida pela artista por uma versão flamenca, que descreve um país imaginário da felicidade e que nunca se alcança por completo.
Por fim, Geografia das memórias é movida por um mesmo impulso: tomar o que é vivido e que, antes e depois de tudo, está gravado no corpo, para fazer a matéria pictórica. As paisagens aqui apresentadas são terrenos férteis, nas quais a lembrança pode crescer e retornar para ser vivida pelo corpo, sendo moldada lentamente pelo passar dos anos.
Christiane Laclau
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