exposição individual | Felipe Scandelari
curadoria Galeria 18
Desculpe, Rafael
Sobre a permanência da tradição
Há pinturas que atravessam séculos. Elas sobrevivem às culturas que as produziram, permanecem nos museus e continuam ocupando um lugar central na história da arte. Ao longo do tempo, organizaram narrativas, estabeleceram referências culturais e deram forma aos ideais de poder, beleza, heroísmo e espiritualidade que moldaram o imaginário ocidental.
Os museus, ao preservar essas obras, preservam também algo menos visível: um repertório de imagens através do qual uma cultura reconhece sua própria história. É nesse conjunto que se sedimentam valores, crenças e formas de representação que continuam atravessando gerações. Toda tradição, porém, enfrenta uma condição paradoxal. Para permanecer viva, precisa transformar-se. Quando deixa de admitir novas leituras, corre o risco de tornar-se apenas documento histórico. Sua continuidade nunca dependeu da repetição, mas da capacidade de se perpetuar, ou seja, continuar produzindo sentido ao longo do tempo.
É justamente nesse intervalo entre herança e reinvenção que se desenvolve a pintura de Felipe Scandelari. Seu trabalho parte de algumas das composições mais emblemáticas da tradição ocidental representadas na história da arte, especialmente do Renascimento. Não para simplesmente reproduzi-las ou para atualizá-las formalmente, mas para investigar aquilo que lhes permitiu atravessar o tempo.
Foi durante o Renascimento que a pintura consolidou algumas das imagens mais duradouras da cultura ocidental, ao estabelecer novas formas de representar o corpo humano, o espaço e a narrativa, definiu modelos que permanecem ativos até hoje. Scandelari aproxima-se dessa herança para investigar, não a sua origem, e sim a sua permanência.
A construção espacial, o equilíbrio das formas e a organização das figuras permanecem reconhecíveis. O que muda são os elementos que passam a ocupar essas cenas. No lugar de santos, deuses e heróis surgem amigos, familiares, crianças e pessoas comuns. Armaduras cedem espaço a bermudas estampadas. Corpos reais ocupam o lugar da fisionomia ideal. A vegetação tropical atravessa paisagens europeias e objetos cotidianos passam a integrar composições historicamente associadas ao sagrado.
Ao preservar essas estruturas e alterar aqueles que as habitam, Scandelari desloca menos a composição do que seus significados. A força dessas pinturas deixa de residir exclusivamente em seus personagens originais e passa a revelar outra característica: sua extraordinária capacidade de acolher novos protagonistas sem perder sua potência simbólica.
Essa operação restitui à pintura uma dimensão frequentemente esquecida. Antes de ocupar os museus, essas imagens pertenciam à vida social. Eram instrumentos de comunicação, organizavam referências comuns e participavam da construção da memória coletiva. O distanciamento que hoje percebemos entre esse repertório e a experiência cotidiana não pertence às obras, mas às transformações históricas que modificaram a maneira de nos relacionarmos com elas.
Ao reinscrever pessoas comuns no interior dessas grandes narrativas, Scandelari amplia quem pode participar desse patrimônio visual e demonstra que a tradição não é um legado encerrado, mas uma construção continuamente renovada por aqueles que voltam a habitá-la.
As obras reunidas nesta exposição recusam compreender a tradição como um conjunto de modelos concluídos e imutáveis. Pelo contrário, sugerem que sua continuidade depende precisamente da possibilidade de permanecer aberta a novos protagonistas, novas experiências e novas formas de representação.
Preservar uma tradição, talvez, nunca tenha significado impedir sua transformação, mas garantir que ela continue viva.
Galeria 18
abertura
12 de setembro das 11h às 15h
visitação
12 de setembro a 24 de outubro de 2026
local
Galeria 18
Rua Simpatia, 23
Vila Madalena – SP
o que saiu na imprensa
texto curatorial
catálogo
fotos vernissage
obras



















